poema que eu não queria


eu só queria amar eternamente...
eu só queria imitar os poemas mais quistos em gestos diários...
eu só queria lamber todos os cantos...
eu só queria tocar sutil e vorazmente...
eu só queria me casar uma vez ao ano em lugares novos...
eu só queria me apaixonar outra vez a cada novo encontro...
eu só queria despir, toda vez que vestida...
eu só queria fazer apropriadamente, mesmo que em lugares impróprios...
eu só queria, às vezes, os lugares impróprios, propositadamente...
eu só queria de propósito...
eu só queria que comer fosse a última coisa antes de dormir...
eu só queria que comer fosse a primeira coisa depois de acordar...
eu só queria sonhos, sonos e vigílias partilhados...
eu só queria viajar o tempo todo, mesmo no retorno...
eu só queria a leveza, a dança e as tardes de chuva...
eu só queria os pés no chão e as cabeças nas estrelas...
eu só queria o silêncio quando silêncio, a orelha no beijo, a língua no sal...
eu só queria sete filhos ou nenhum...
eu só queria dar banho, fazer massagem e servir café na cama...
eu só queria que amanhã fosse tudo ainda mais...
eu só queria morrer dentro...
eu só queria rabiscar no corpo palavras falhas, pontuações fálicas, acentos...
eu só queria o peso dos martelos e bigornas...
eu só queria preliminares longuíssimas, os orgasmos múltiplos e quando fosse dá, ou desse, rapidinhas...
eu só queria perder as contas das coisas boas, não contar as outras...
eu só queria ser alguém em quem se pudesse contar...
eu só queria passear de mão dada pelo mundo inteiro...
eu só queria o branco dos olhos e aquele gemido inexprimível...
eu só queria ligar pra dizer “eu te amo”...
eu só queria mandar um sms, um gracejo, uma nuvem...
eu só queria praticar que eu me importo, apoio...
eu só queria cuidar...
eu só queria pôr no colo, botar atrás, na frente, em tudo...
eu só queria todos os buracos, pra mesmo assim, não caber...
eu só queria não caber mais em mim...
eu só queria dar agrado; um chêro no cangote, chorar junto...
eu só queria beijos, abraços e cafunés nos pêlos todos...
eu só queria os arrepios rompendo as madrugadas...
eu só queria carícias sem fim...
eu só queria as brigas justas e sem deixar de ser amantes...
eu só queria regar as flores do jardim e o os fogos do incêndio...
eu só queria entrar e sair ficando cada vez mais...
eu só queria mais uma, infinitamente...
eu só queria que quisesse...
eu só, queria.



4 comentários:

  1. Lindo, Rafa! De repente me lembrei da música Minha Música, da Adriana Calcanhoto. Continue poetando! :)

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  2. Eu só queria dizer que é bonito demais ...

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  3. Que ria daqui pra frente, por tanto querer!

    =)

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graças pela partilha!

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