concerto a céu aberto para duetos de brisa e borboleta ou as memórias que bêbados e crianças in-ventam



era um dia cinza, em vevey. o carrossel girava tristonho, às margens do lago léman. não havia feira na praça central, nem o vermelho das framboesas frescas. não havia crianças brincando nas fontes, nem havia verão por sobre as vinhas de chardonne; e nem raios de sol traspassados ao vidro de seu funicular havia. não havia música contente nos pianos e saxofones de montreux. os patos flanavam melancólicos. o vento era fraco e soava a lamento. as águas, calmas e gélidas, rebatiam um discreto e incômodo frio à riviera.

os cafés e queijarias e panificadoras estavam cheios de agasalhos, e cigarros; e frustrações. nada que se parecesse a um sorriso. nada que brilhasse nos olhos de ninguém. nada que recordasse a lua cheia da madrugada anterior, o céu aberto à meia-noite, o banho nu, o exagero de estrelas, o beijo roubado na pontezinha em arco, sobre o canal...

eu chegava ali dias antes, com o circo... mesdames et messieurs!... directement venus du brésil!... pour un petit séjour à lausanne! ...dias que vinham sendo de muita luz, muito sol; muito calor. mas, nesse dia... não havia nada disso. e também não havia circo. nem marmelada havia. não, senhor! não havia nada. a não ser a necessidade de ir visitá-lo...

aquele vagabundo! que aliás... era, em muito, culpado pelo monumento, no mundo inteiro, da vagabundância... monumentado ali! bem ali! ele mesmo! em pessoa! ali... entre a fábrica de chocolates e o imenso imerso garfo, esculpido no lago... todo metalizado, com seu bigode e seu chapéu – clássicos... sua bengala – que também já fora roubada! tal qual os óculos de drummond, em copacabana (vai ver, nem todo gênio tem vocação para estátua!)... e uma flor – mesmo bronze, ele tinha uma flor...

tinha que visitá-lo. e não como metal; mas feito aura. sai, então, para roubar alguma flor de verdade – a mais linda que achasse! – de algum jardim público da cidade e, já com ela nas mãos, subi num ônibus branco para corsier-sur-vevey.

da paragem final, fui seguindo... ladeira a cima e comuna adentro... por ruelas cada vez mais estreitas e esvaziadas. e, enquanto isso, a chuva, que resolvera enfim começar a cair, também seguia apertando, esvaziando as nuvens... mas, no entanto, ainda ia lenta; como a tarde gris.

cheguei assim ao cemitério... que, por sinal, era bem menor e mais singelo do que imaginava. tinha um muro simbólico, muito baixo; tomado por lindas e verdes trepadeiras... e um portão, também simbólico; fechado, mas aberto. e não havia ninguém lá – se é que se pode dizer isso de um cemitério!

entrei. a chuva, aí, era já mais intensa... ao passo em que eu caminhava por entre todas as lápides – gosto de contar quantos anos viveram as pessoas, saber seus signos, imaginar suas histórias... e, quando, finalmente, cheguei... ao sepulcro seu, que restava ali, lado a lado com o de oona... faltava-me já muito pouco para terminar a volta. pedi, então, licença aos dois para terminá-la e, tão logo que o fiz, retornei... sentando-me ali, bem de frente para eles. seu cantinho era o único a conter uma banqueta, para que os visitantes se acomodassem...

permaneci ali por um tempo. quieto. e, às vezes, sentia vontade de sorrir. do banco se via que, sobre a pedra com a inscrição de seu nome – assim como na de sua última esposa, porém menos – havia muitas coisas; coisinhas! levantei-me e fui até lá, ver o que eram... pequenos totens, feitos com pedrinhas lisas; algumas flores secas, molhadas da chuva; um bonequinho seu; e moedas... muitas moedas, de todas as partes do mundo. charlot – como era conhecido ali – estava rico!

preferi deitar a minha flor – que era pública! – ali ao solo mesmo; entre os dois túmulos. e, bem no momento em que estava a fazê-lo, ainda abaixado, escutei uma voz de avô, vinda de trás, a me perguntar: mas, afinal, o que faz aqui, menino? – e eu quase que já sabia quem era; mesmo sem me virar. mas, quando virei: batata! era ele mesmo! todo faceiro... ali no banquinho! e, assim, lhe disse: visitando um amigo, manoel! um mestre; que morreu... manoel gargalhava. e o escracho só se interrompeu com a tosse, que, já em seguida, se interrompia com outra questão: e você acha mesmo que esse carlitos iria parar num lugar tão linear como a morte, menino? mais risada... e eu, como havia de ser, titubeei... ué! mas, e você, manoel, por quê é que tá aqui? e o danado escapou sãozinho: eu não estou! e ria... você é que me está inventando aqui!

uai... você tem aí alguma moeda? perguntei. vixe, menino! e eu lá preciso disso, de onde venho? ...e você? não tem? tenho não! como pagou o ônibus? não paguei! e também não pagou a flor? não! só peguei! manoel silenciou por instantes... e a chuva também se foi calando, gota a gota... e, quando já chovia só debaixo das árvores, foi que ele soltou: sabe, menino, esse carlitos, aí, não vai precisar dessa dinheirama toda, não acha?

...

juntei todas as moedas de euro que estavam lá. e, quando olhei pra trás, manoel já se havia ido: chá de sumiço! – sorri. desci a ladeira embalado, com o bolso cheio, chocalhando os centavos, assoviando ‘o que é, o que é’, até parar numa erma adega de esquina...

escolhi uma mesa do lado de dentro, perto da janela. e quando o garçom chegou, com a carta, fui logo botando as moedas todas na mesa: donne-nous n'importe quel vin! sorri: sur le compte de charlot! ...trois verres, s'il vous plaît. o garçom saiu transtornado. ia com as mãos cheias e, quando voltou, com o vinho branco mais barato da casa, as taças e uma moeda de troco, um leve barulhinho de cortina sacudida chamou-nos à atenção: era uma brisa lúdica, toda esvoaçada e torta, junto de uma serelepe borboleta branca! zanzaram um pouco por ali, repentinas, e, outra vez, irromperam à janela... gardez la monnaie! sorri, derradeiramente: je vous remercie beaucoup, mon ami! beijei o rosto do moço, de assalto, e sai com a garrafa de vinho na mão.

fui parar na beira do carrossel, com os pés no lago, a boca no gargalo, patacoando, de bico, com os patos, em francês, tentativas prolixas de convencê-los do quanto essa vida é bonita. despejava, de quando em vez, goles do vinho branco no léman, pros dois. evoé, mané! santé, charlot! mas parei, a certo ponto, com medo de embebedar os peixes...

e não sei se foi exatamente isso o que aconteceu, ou se os goles se evaporaram para o céu – que a essa altura já estava todo aberto e anoitecido –, ou se as estrelas são almas gêmeas dos peixes, e os refletem – bem como a água faz com o firmamento... mas, o que sei, é: que, a um dado instante, aqueles pontinhos luminosos estavam, todos eles, bambaleantes. hora de ir pra casa, pessoal! gritei.

também o meu caminho de volta, ao final, foi coisa nada estável ou reta; nada linear... e quando cheguei, lá, onde o circo dormia, deitei com o olhar fixo à janela – que apesar do friozinho, fiz questão de deixar entreaberta. via o dançar ondulado da cortina e, nos seus intervalos, desvendavam-se pequenos pedacinhos da madrugada...

e foi assim que tive a ilusão de ver, num deles, algo coser aquele lindo negro-azul num ziguezague iluminado. seria uma estrela cadente? sorri-me: estrelas cadentes não erram assim, ôxe! e tudo que ouvi, em seguida, foi uma gargalhada de avô... que só foi parar na tosse, interrompida logo depois, por um resmungo qualquer; que breve desapareceu no escuro...



4 comentários:

  1. a cada manoelada tua eu tenho mais e mais vontade de inventar mundos, e de viajar pros teus, monsieur le poète.

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  2. eu que não bebo, teria muito gôsto de participar a gordas goladas do bambalear ziguezagueante desses pedacinhos oníricos! ^^)

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  3. Meu caro amigo poetante, arrependo-me agora de não ter seguido o teu conselho: preciso degustar essa iguaria com um bom vinho! Só assim poderei, talvez, comentar apropriadamente quão apreciável foi a companhia do Charlot e quão honroso o conhecimento do Manoel. O problema é que os bons vinhos aqui são tão caros... vai ser preciso me inspirar em ti. Donne-moi n'importe quel vin! De qualquer forma, mesmo sem o vinho, o texto já me foi realmente inspirador! Bravo, mon cher!

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  4. Lindas fotografias.
    E enfim,a fim de...sem pretensões
    Se fez poetante o poeta andante.

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