synchrony's idade


Naquela quinta eu ainda tinha uma partilha pra partilhar, no Café Under Masken, mas, para além dela, eu já sabia: deveria sair na sexta, bem de manhazinha, lá pra beira da cidade, a ver se arranjava uma carona para Odense...
Odense é essa cidade que me faz sentir sempre muito aconchego... Cantinho mágico da Dinamarca, com seus contos de fada, sereia e patinho... Suas fábulas, suas bicicletas, suas casinhas antigas... Suas esculturas espalhadas por todas as partes... Todas as magias já saboreadas ali... A cultura que eu sempre buscava por lá... A casa de jazz... A cerveja... Os cafés... As luzes charmosas à noite... Os pique-niques nos parques... Os concertos abertos no jardim do rei... A feirinha de rua... A lojinha secreta onde se encontrava leite condensado para os fantásticos brigadeiros de panela... Enfim...

Faltava-me apenas saber como chegar lá - uma vez que meu dinheiro já não era o bastante nem pro trem; e onde ficar lá, depois de chegar - porque todos os meus amigos, de lá, não estavam na cidade, naquele momento... É verdade que havia a possibilidade de ficar na casa de qualquer um deles, mesmo assim, mas... nesses casos e casas, não é só uma questão de "com teto"... É uma questão de com-tato...
Por isso resolvi ligar para Hans e Mette...

Alguns dias antes, em Ollerup - cidade onde morei e estudei por um ano, anos atrás -, ainda na primeira parte da viagem e com a galera toda ali, resolvemos oferecer algumas vivências para as famílias que lá estavam, por ocasião do verão... E uma dessas vivências, na qual eu acabei dando uma mão, foi o forró! Hans e Mette foram um dos casais presentes.

A experiência foi demais de boa! E, ao final, ficamos conversando por mais uma hora e meia, coisa assim... É que o irmão gêmeo do avô de Hans, que também se chamava Hans - ou, "velho Hans" -, uma vez se mudara para o Brasil, a trabalhar num laticínio, lá nas Minas Gerais... E o "velho Hans", que naquela época era bem novo, acabou ficando por ali, pra sempre! Casou-se com uma brasileirinha e foi formando uma grande família, misturada e linda... Logo também, começou com seu próprio negócio... E prosperou! Teve depois muitos laticínios espalhados pelo interior mineiro e foi vivendo assim, de queijo! Com suas fazendas e seu velho avião amarelo, que usava para sobrevoá-las...

E por conta dessa estória, Hans - o novo - até falava um pouquinho de português! A família já havia estado no Brasil algumas vezes e sentia, por nós tupiniquins, um grande carinho! Foi, aliás, inspirado no tio avô e seu velho avião amarelo, que o "novo Hans" resolveu o que ser quando crescer... E formou-se piloto.

Mas, repousando outra vez no forró... Foi naquela conversa de uma hora e meia pós-dança, que essa "minha" coisa de música e poesia veio à tona e, Hans, fascinado pela musicalidade brasileira, me deixou seu telefone... A idéia era que eu telefonasse, no caso de acontecer qualquer partilha musical na cidade em que viviam, Odense, ou arredores...

E acabou que eu liguei! Mas não pra avisar de qualquer partilha agendada por ali... e sim, pra dizer que eu estava a caminho de Odense, mesmo sem nada marcado, de carona, sem saber como nem quando ia chegar, e que ainda não tinha nem onde ficar por lá! E não me surpreendi nadinha quando ele me disse que eu poderia ficar com eles... a vida sempre toma conta da gente... "você pode ficar no porão" - sentenciou! E eu, que nada tenho contra porões, fiquei mais que satisfeito!

Só faltava então descobrir como chegar... A previsão para aquela sexta era de chuva... E não seria bacana pegar carona num dia assim... Mas tudo bem! Já era tempo de ir pro centro e me preparar para a partilha no Under Maken... A vida tomaria conta daquele detalhe também....
E aqui vem aquela parte - já partilhada em algum lugar dessa minha bagunça - em que, no meio da primeira canção, Agnete, essa querida amiga dos meus tempos de Dinamarca e de Japão, aparece... Lindo encontro! Baita alegria minha! e tal...

Mas o que ainda faltava dizer é que, depois da partilha musical daquela quinta, sentava eu a uma mesa, com Agnete e sua prima... e ali falávamos da vida e de suas coisas todas... Tanto tempo! Que bom viver esses reencontros! Lembra daquela vez...? E foi numa dessas curvas, que as conversas sempre fazem, que eu dividi, com ela, um pouquinho da dor que sentia naqueles dias de Århus, dizendo, por fim, que no dia seguinte seguiria para Odense, "no dedo"... Agnete então corou de surpresa; imediatamente. Parecia espantada, mas de um jeito feliz! E rindo muito, me disse que, no dia seguinte, ela e o namorado iriam para Odense, de carro, e que eu era mais que bem-vindo para ir com eles! Ah! a vida toma mesmo conta de tudo!
E assim, na sexta, bem de manhazinha... ao invés de ir pra estrada, peguei um ônibus e fui até o prédio em que Agnete e Daniel, seu namorado, viviam. Os dois estavam trabalhando a voltariam à tarde. Sua prima, Karina - a mesma da noite anterior -, que também era sua vizinha, me esperava, com seu namorado e uma amiga, para uma café da manhã com pão quentinho, geléia de framboesa e pasta de avelã...

Depois desse dengo todo, ainda peguei a chave do outro apartamento e, ali, teria o dia todo para descansar! Os apartamentos daquele prédio eram lindos... antigos e diferentes entre si... únicos! Todos bem pequenininhos e muito, muito aconchegantes!

Na geladeira tinha pizza com recadinho e vários outros agrados, desses "pequenos", que mudam a vida da gente! Agnete tinha feito muffins de blueberry com chocolate e... Sabem quando a coisa é tão boa, mas tão boa, que dá até vontade de falar um palavrão?

E ainda dava pra subir no teto do prédio, de onde se tinha uma vista incrível... atrás, um pátio gostoso, daqueles predinhos todos; à frente, um parque lindo de viver; mais para lá, o centro da cidade; e bem ali, no lado esquerdo, o mar... ... ...
Pouco mais à tarde, lá estava eu, conhecendo o Daniel, cara muito querido! Depois veio a Agnete, o café da tarde, novos e preciosos momentos de com-vivência com eles e, lá pelas cinco e tantas, já pegávamos a estrada no rumo de Odense.
Lá fora, a chuva começava a cair... e com a vida tomando conta, a chuva só era bonita...


Agnete e Daniel fizeram questão de me deixar à porta da casa de Hans e Mette! E, logo na chegada, fui recebido com sorrisos lindos... Sorrisos lindos também marcavam o 'até logo', do outro lado... E, no meio daquilo tudo, eu também era só risos... Ou quase... Porque, nos olhos, havia também qualquer coisa de úmida e brilhante se formando... Como se fora uma mimese muito singela da chuva recém caída... A tempestade no seu estado mais orvalho... ... ...

E a vida seguia...

A casa era uma casa incrível! Mas eu podia crer...

E, quanto àquele porão a que  Hans se remetia... Era na verdade como um apartamento todo, em baixo da casa, com quarto, sala, banheiro, cozinha e lavanderia!
Lá estava eu em Odense... de volta à familiar ilha de Fyn, em plena terra de Hans Christian Andersen... lândia de fadas e fábulas... Enfim!



E esse era só o começo dos encantos que a vida me tinha por lá...
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