Odense - parte 1

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Entrei na casa; deixei minha bagagem pelo começo; entrei mais. Mette estava na cozinha, ajeitando coisas... Partilhamos um abraço... Aquela era a segunda vez que nos encontrávamos nessa vida, mas aquele com-tato tinha já uma intensidade familiar... bem como há de ser! Dali para a sala, e conhecí Mikkel e Kristoffer, os filhos, que ainda não havia conhecido assim, diretamente... Naquele momento eu ainda era um pouco estranho àqueles dois, mas eu sabia, tranquilo, que aquela estória logo iria mudar...

A casa era grande. Grande a bacana! Desci as escadas para me acomodar no "porão" e, rapidamente, já era tempo de subir... e sair... pro quintal! Dia de barbecue, com os amigos!

Hans e eu fomos estudantes no mesmo local, em Ollerup, mas em épocas bem diferentes - a vida e suas sincronias... - e, naquela tarde, o encontro seria com dois amigos seus, que também lá estudaram, no mesmo tempo em que ele, e suas respectivas famílias. Havia muito encanto naquele encontro: três jovens solterões, que estudaram juntos, e que continuaram juntos... pelo tempo, numa amizade bacana, que foi vendo o tempo passar... os namoros, noivados e casamentos acontecerem; as crianças chegando, uma a uma; a barriga crescendo pra um; os cabelos caindo pra outro... Enfim, três amigos partilhando a vida... com-vivendo. E aí, talvez, nesse viver-com  esteja todo o encanto desse sermos-humanos...
Era uma tarde perfeita de verão! E a Dinamarca se enche de beleza em tardes assim... perfeitas de verão! O verde fica mais verde, o azul mais azul... há uma luz diferente no ar, permeando as coisas... refazendo-as... Talvez seja a proximidade com o norte e suas luzes especias... Mas, seja porque seja, há qualquer coisa de mágico e extraordinário nessas perfeitas tardes dinamarquesas...

E o quintal era imenso... cheio de especiarias sinestésicas espalhadas... e muita grama, verdinha-verdinha! E fofa! Dava vontade de deitar ali e deixar que a tarde iluminasse... ... ...

Todo aquele encontro aconteceu de um jeito muito gostoso! Crianças correndo - e, muitas vezes, eu correndo junto -, papos muito gostosos com os adultos, comida - que estava uma delícia - sempre à mesa; vinhos, cervejas, boas estórias... tudo com muito aconchego, amparo e acolhimento... Tudo bem como pode sempre ser!

Enquanto tudo isso acontecia, o Sol ia se pondo, lentíssimo, colorindo aquele momento de coisas que não podem ser ditas... ... ...


E veio então a noite e seus outros encantos... Com ela, veio também um friozinho, que foi levando as pessoas, poucas a poucas, mais para dentro da casa. As crianças brincavam na sala. As mulheres conversavam na cozinha, práticas, enquanto já limpavam todas as coisas e reajeitavam tudo ali. E assim, quando dei por mim, éramos já apenas eu e os três amigos... os quatro estudantes de Ollerup, sentados num banco, em frente a uma fogueira improvisada...

Dias atrás, quando Hans me passava o seu número de telefone, era intentando que eu o avisasse de qualquer partilha musical que pudesse, de repente, vir a acontecer por ali, por Odense e tal... E, bem mais que de repente, lá estava eu, na sua casa, no seu porão, e sem nenhuma partilha musical marcada por ali, até então...


Mas aí, naquele instante em que estávamos todos lado-a-lado, bem ali, silenciados pelos encantos do fogo, Hans se levantou e, sem falar nada, se ausentou por uns poucos minutos e, quando voltou, tinha nas mãos esse violão... bem pequenininho... Hans era mais alto que eu, devia ter lá o seu um metro e noventa e tra lá lá... e, aquela cena de um homem daquele tamanhão, segurando um violão tão pequenininho nas mãos, era de uma beleza sem tamanho...

Muito mais ainda quando Hans me contou que tinha ganhado aquele violão de sua mãe, ainda quando criança - e por isso o tamanho -, mas que logo desistira de aprender a tocar, porque seus dedos doiam... Contou-me também que, desde então, ninguém jamais o havia tocado "pra valer"... E logo depois perguntou se me sentiria ofendido diante de um pedido para tocar um violão tão ruim assim, expressando que, se não, ele ficaria muito muito feliz de me ver tocar qualquer coisa ali... ... ...


E eu então lhe disse, já no meio de uma baita comoção, que não havia ofensa nenhuma, e que me seria, na verdade, uma honra poder tocar aquele violão...


Passei um bom tempo tentando afiná-lo... as cordas que nunca haviam sido trocadas... o tamanho reduzido do instrumento, que alterava os tons... Até que, aos poucos, alguma sonoridade mais harmônica ia começando a criar corpo, nos dedilhados simples que eu fazia... Mal isso acontecia e Hans já se comovia; via-se bem... E não o vivia só, seus dois amigos e, muito mesmo, eu, nos co-movíamos também...


As cordas seguiam desafinadas, já bem menos, mas ainda sim... No entanto, àquele momento, essa dissonância não fazia qualquer diferença...


Depois de algum tempo, fui serenando o mover dos dedos, até parar o som. Pausa. Sorrisos... E os três, quase em uníssono, me pediram para cantar alguma coisa! Algumas das minhas coisas... E como vem sendo sempre até aqui, decidí começar com 'amoreiro', como mantra...


Contei a eles, calmamente, a história toda, entre variações de luz e, vez em quando, um estalo de lenha em brasa... E quando comecei a cantá-la, poucas a poucas, primeiro as crianças e, depois, as mulheres, foram voltando, pro quintal...


E assim já estávamos todos ali, em volta daquela fogueira... em partilha... ... ...

Aquela situação era bem diferente de quando toquei em Copenhagen, na Casa Tropicália, ou das duas vezes em que toquei em Århus, na Café Smagløs e no Under Masken... Não se tratava de um bar, um café, um centro cultural... Tratava-se "apenas" do quintal da casa dos Nørremose! Não havia data nem hora marcada, não havia equipamento de som nem de luz... Havia um violãozinho com cordas velhas e meio desafinado, havia uma luz de fogueira improvisada...  E havia pessoas... ... ...

E uma partilha, para acontecer, entre pessoas, precisa apenas de pessoas... ... ...




Toda chance de partilha é uma dádiva... E partilhas, bem como as manifestações artísticas e todo e qualquer momento de vida, são incomparáveis.


Foi mágico tocar nas ruas de Århus, sendo invísivel para quase todo mundo, mas não para as crianças... Cada com-tato daquele valia uma vida... validava uma eternidade... Foi mágico tocar naquele quintal, praquelas treze pessoas... E ainda tive a sorte do encanto daquele violãozinho desafinado e daquela fogueira improvisada... ... ... Essas tais "pequenas" coisas da vida...


Eu sou milionário de abraços... ... ...

Quantas vezes a gente ganha na loteria, nessa vida? E quantas vezes, nessa vida, a gente tem chance de partilhar aquele abraço gostoso com alguém? Tem gente que morre na miséria à espera da mega-sena... Tem gente acerta, ganha milhões... e morre miserável... ... ...
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Naquela noite ainda partilhamos muito mais... Depois de algumas canções ali entre todos, éramos denovo "só" nós quatro e mais algumas crianças, lindas, que insistiam em ficar por perto, mesmo com frio e sem entender nada, ou quase, do inglês em que falávamos... E, entre uma canção e outra, ressoavam-se longas pausas de silêncio, em que admirávamos o fogo e, simplesmente, ficávamos ali... E, de repente, alguém falava alguma coisa; partilhava... Cada palavra dita, cavava um pouco mais de profundidade naqueles sentidos... Era momento de se deixar sentir toda aquela vida... assim, simplesmente sentir... Todos aqueles anos, desde jovens, passando pelos namoros, noivados, casamentos, as crianças, as barrigas, os cabelos, toda aquela partilha de anos... ... ... E constatar, por um lado, que a vida passa de pressa... Que os caminhos são muitos e como cada escolha diferente pode nos levar a lugares totalmente alheios, durante esse seu decorrer... Mas, por outro, sentir o quanto aquelas escolhas feitas valeram e valiam à pena. Eles não tinham idéia de como seria se as escolhas fossem outras - e quem é que tem? -, muitas delas seriam, certamente, também muito legais! Mas que tudo aquilo valeu a pena... os namoros, os noivados, os casamentos; as crianças... e sobre as barrigas a mais e os cabelos a menos, às vezes, a vida também tem dessas coisas, né! E possivelmente ainda haveria mais vida e mais escolhas pela frente... mais caminhar... E, principalmente, valia a pena estar ali, naquele momento... Partilhando... Humanizando esse momento de estarmos aqui... Usando o tempo, para gerar coisas lindas, que duram para além dele... ... ...
E assim, de partilha em partilha, foram-se passando aqueles dias. E eu já ia me sentindo mais e mais da família! Já arriscava meu dinamarquês com as crianças! Mikkel, o mais velho, adorava video-game! Kristoffer era fascinado por música! Partilhamos muito, cada qual à sua maneira... em inglês, em dinamarquês e na despalavra!


Houve também aquela típica festinha de aniversário infantil dinamarquesa, de uma priminha, que gostei muito de experenciar... Calmíssima, sem criançada correndo, falando alto e ralando o joelho - antropologicamente interessante -, mas com doces deliciosos - gastronomicamente bem interessante também!

E assim, a cada café da manhã, cada almoço, cada café da tarde no quintal com os vizinhos, cada jantar, cada barbecue - e foram muitos, como se comia naquele lar, doce e salgado lar... A cada momento juntos, jogando com Mikkel, tocando com Kristoffer, na conversa excepcional com Mette numa tarde de lavanderia, no passeio de bicicleta com Hans pelas beiras de Odense... Em cada instante desses, cada detalhe, cada "pequena" coisa... A gente ia fazendo eternidade, a gente ia ficando família...

E, lembram-se do "velho Hans"? Pois depois de mais de um século de vida, ele  se pôs a descansar bem naqueles dias, em que eu estava ali. A notícia chegou do Brasil em paz... O "velho Hans" descansou assim, calmamente, em casa, dormindo, depois de 103 anos muito bem vividos entre Dinamarca e Brasil, deixando uma história lindíssima a ecoar pelos dois lados do Atlântico, e a continuar numa lindíssima, grandessíssima e encantadoramente misturada família, que ajudou a compor!

Eu, que já era parte da família naquele momento... E que já havia me envolvido tanto com a história do "velho Hans" e da parte da família que vive hoje no Brasil, inclusive a ponto de idealizar uma visita já logo que eu voltasse pra lá... Recebí a notícia como se fosse meu próprio tio-bisavô indo descansar... e foi!
A vida, em plena idade de sincronia, seguia assim... Um caminho de 103 anos, concluído bem entre os 3 dias em que eu estava junto da família, na Dinamarca... E o fato d'eu estar ali, com eles, fez com que eu pudesse ajudá-los a traduzir essa linda carta de condolências e várias outras mensagens de conforto, solidariedade e carinho para com a parte brasileira da família, que havia acompanhado tudo muito mais de perto, e que não saberia compreender o dinamarquês, e também não, em grande parte, o inglês.


Poder partilhar daquilo tudo foi algo muito especial pra mim... Era ali, depois de todas as reviravoltas da vida, que eu tinha que estar...



Em mémoria do "velho Hans", com um beijo em sua alma... E um beijo na alma de todos dessa família, os Nørremose, da Dinamarca e do Brasil, que se tornaram também parte da minha família, assim com eu da deles... Em especial para Kristtofer, Mikkel, Hans e Mette... por cada detalhe da partilha linda e eterna desses três dias
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3 comentários:

  1. tentei aqui começar um comentário, mas não consegui. vou apenas contar a sensação [se é que ela se explica]: mais ou menos no meio do texto, quando os olhos já se enchiam de reflexos, parei. busquei as "amelias, amoras e eus" na sua voz. terminei o texto ouvindo. em música e sensações. porque é isso... simplesmente sentir!!

    continue fazendo eternidade! e uma fortuna em abraços!! =]

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  2. delícia de ler e maravilhoso saber da sua felicidade e partilha nesse outro lado do mundo!

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  3. teu blogue está muito apetitoso!
    anseio pela hora de saída do escritório, para o devorar.

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graças pela partilha!

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este trabalho de rafa carvalho, foi licenciado com uma licença creative commons - atribuição - não comercial - compartilha igual 3.0 não adaptada.