Århus - parte 3

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Lá pelo fim de tarde, resolvi ir mais cedo para o centro e tocar um pouco na rua, pela primeira vez aqui...

Não queria tocar esperando, quem sabe, alguns trocados, embora já precise muito deles e saiba, desde casa, que terei de fazê-lo, inevitavelmente... Mas, nessa vez, queria apenas olhar para as pessoas...

As lojas estavam já fechadas, o Sol já ia mais baixo, bloqueado por alguns estabelecimentos mais robustos, da rua central... Eu tocava baixo, simples, num canto discreto... E assim, eu era invísivel a quase todas as pessoas... Mas aí a sorte começou a virar - a sorte vira sempre, é sinônima do vento... e ambos sempre a favor... E passou a primeira criança...

Vinha levada por um adulto, às pressas... Mas me olhou, daquele jeito, de verdade, bem dentro, desde quando pôde, até passar por mim e, depois, até onde seu, primeiro pescoço, e aí corpo todo, se puderam contorcer...

E depois dessa veio outra. E outras... Nenhuma delas me deixou invisível, nenhuma delas se fez invisível a mim. Lembrei-me imediatamente dos tempos de Japão... e de como aqueles olhinhos puxados me acolhiam bem às minhas jabuticabas!


Se há um portal para o novo mundo - e há de haver - os adultos, que se atreverem, terão que o transcender de joelhos... porque ele há de ser da grandeza das crianças... ... ...


E assim eu estava pronto para tocar no Under Masken, naquela noite. O café era mesmo incrível. Uma boa música rolando, uma bela coleção de cervejas, artefatos pendurados por todos os cantos, pisca-piscas irradiando excentricidade pelo bar e por aí ia... Numa mesa, dois caras com dreadlocks imensos jogavam xadrez e tomavam cappuccino...

Bobby McBride é esse americano, cantor de folk com fortes influências irlandesas, que vive aqui há quatro anos, tocando seu belo "cordas de aço" de pub em pub. Cara extramamente gente boa, que já tinha tocado muito ali, e apareceu voluntariamente - ou quase... ganhou duas cidras e tal - para me ajudar com os equipamentos... pedestal, cabos e um shure bacana para a voz...

Mais uma vez, nem tanta gente e pagamento em quanta cerveja eu pudesse beber. No meio da primeira música, apareceu Agnete, uma linda amiga, de quando vivi aqui, que também chegou a viver no Japão mais ou menos na mesma época em que vivi por lá. Baita surpresa! A alegria foi tanta, que parei a música no meio, pra poder abraçá-la... Não que a música tenha parado de fato - a música não pode parar - ela só se fez livre pra se (en)cantar de presente, naquele momento... como há de ser em todos...

E assim a partilha seu deu... música a música. As coisas pareciam mais humanas que na noite anterior e eu também já me atentava mais às diferenças, existentes de fato. E ao final, mais uma vez, embolsei eternidades suficientes pra sair de lá riquíssimo. Rikke, a bartender; a dupla do xadrez e dreadlocks; uns malucos alto-astral que tavam mais escondidos, num dos cantos do balcão...

E a estória ainda vai longe, tanto que devo retomá-la na vez que vem... Mas, pra resumir, ainda passamos em um irish pub pra agradecer ao Bobby e vê-lo tocar um tanto. De lá pegamos o ônibus pra casa.

Quando deitei na cama, ainda estava bêbado de todo o desconhecido que vivi em Århus... mas tinha já muitas re-razões pra reconhecer toda aquela etapa e dormir em paz... A ressaca da desumanidade  havia já passado. A esperança voltaria em breve, com o Sol, logo as 4 da manhã.

E eu estaria de partida para Odense, de volta à familiar ilha de Fyn, em plena terra de Hans Christian Andersen, de onde escrevo hoje... lândia de fadas e fábulas, a ver que encantos a vida me tem por aqui... ... ...    .   .   .
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2 comentários:

  1. é por isso que fazem me sentir tão em essência, as crianças. ao cantarolar beatles para meu afilhado de um ano, na última terça-feira, senti-me encarada em alma. por um olhar doce, cúmplice e um sorriso desatado, singelo e verdadeiro.
    só elas sabem o caminho da vida. só elas.

    e que bom saber de suas passagens.
    e que passo a passo, o mundo se desconstrói para então, na mais linda poesia, se construir novamente.

    saudade do sentido!

    beijos,
    Amanda

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  2. Público mais admirador e sincero não há! Tocadas foram por você, tocador!

    Eternidade linda!

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graças pela partilha!

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