Århus - parte 1


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Depois de Copenhagen, de tocar por lá e começar de vez com essa europopéia... Depois de dias demasiadamente aconchegantes, ou hyggeligt, como se diria em dinamarquês - aliás, umas das minhas palavras favoritas no idoma -, na pacata e nostálgica Svendborg... Veio a vez de Århus...

Segunda maior cidade da Dinamarca, situada na costa leste de Jylland, parte continental do país, bem entre a sua esguia  e exótica ponta ao norte, que flecha o encontro entre báltico e nórdico, e a Alemanha, ao sul.

Desembarquei cedo do trem, e encontrei a cidade embebida em um dia lindo. O Sol brilhava enfim, na Dinamarca em seu verão nem sempre tão qual!

Tanto que no dia seguinte, lá estava eu em Skagen, a tal ponta ao norte, onde os dois mares se beijam...

Imaginem um beijo de mares... ... ... 


Fazia outro dia lindo ali e eu finalmente experenciava a tão sonhada "subida" até lá. Deixei um pouco de mim naquele fim de país e me trouxe uma eternidade como souvenir...

Pena não poder ficar com o Sol até que ele se fosse, por ter que ir primeiro... Mas era dia de partilha musical e o Café Smagløs me esperava em Århus.

E aqui um detalhe que, se eu não me engano, seguiu indito até aqui: saí do Brasil com lenço - não é segredo que tenho um certo gosto por eles -, com documento - não gosto deles, mas tive que -, e sem violão... .

Parece bem errado, eu sei... Mas, pra polpar os detalhes - ah! os detalhes... - eu devo adquirir um novo violão na viagem, mas apenas quando chegar à Alemanha. Assim sendo, em quase toda e qualquer partilha musical que acontecer até lá, tenho que emprestar um, de alguém. Em Copenhagen consegui um até que bem bacana! Já em Århus...

O violão era de um primo do primo do primo de alguém. Tinha sido comprado há anos, tocado - no sentido tátil - umas duas vezes e abandonado no sótão para todo o sempre. Seria esse mesmo! E bem, depois um belo dia em Skagen, lá estava eu, de volta a Århus, no Café Smagløs, com o violão, do primo do primo de alguém, pronto pra partilha.

Na Dinamarca é muito comum os músicos serem "pagos", nesses bares e cafés, com alguma comida e quanta cerveja eles puderem beber. Nada de grana. Todavia, apesar do bolso vazio, o aconchego do lugar já me bastava... eu gosto mesmo desses ambientes, dos cafés... a meia-luz, quase sempre tendendo ao âmbar... e, no caso do Smagløs, o cheiro amadeirado no ar, ecoando de toda aquela mobília, suficientemente antiga; os passos percussivos de quem caminhava até o balcão, marcando um tempo muito mais calmo do que aquele que se ouvia pelas ruas do centro, nos horários de trabalho... Enfim...

Mas, mesmo o aconchego de lá me bastando, certifiquei-me de escolher algo bem caro pra comer - não que haja muitas coisas baratas por aqui... algo pelo quê eu sequer poderia pensar em pagar - não que eu possa pensar em pagar muitas coisas, também... e torci pra que aquilo fosse típico, no sentido de ser especial, "da casa", além de, se desse, gostoso. E, afortunadamente, o resultado foi: possivelmente, o hambúrguer mais sensacional que já provei nessa minha vida - e, sinceramente, não me lembro se, em qualquer uma das outras, cheguei a provar algum...

Mas, então... é verão na Dinamarca e, como nem sempre se pode senti-lo aqui, muitos dinamarqueses deixam o país nesse período, em vacação. No caso de Århus, que é uma cidade de estudantes, a coisa fica ainda um pouco mais notável.

Não havia muita gente ali dentro... pra ser sincero, havia mais lá fora... E aqui, outro ponto: justamente pelo verão estar acontecendo de fato naquele dia - falo "dia" mas eram já nove, da noite, em pleno azul - as pessoas que estavam lá, que não haviam migrado em vacação, não queriam sair "de fora", por nada "de dentro" nesse mundo...

A partilha aconteceu assim, entre poucos... alguns amigos e familiares de Nina, que me hospedava ali; uma amiga minha, Pernille - que eu, por minha vez, já havia hospedado no Brasil... que me apareceu ali de surpresa - confesso que não me lembrava que ela vivia em Århus... milagres das tais redes sociais; e algumas outras pessoas, que estavam ali, talvez, por acaso.

Qualquer chance de partilha entre mais que um é uma dádiva, mas... eu também confesso que, naquele dia, tive seríssimas dúvidas sobre se havia mesmo pelo menos um que fosse, ali do outro lado, partilhando de fato... E sim, eu tinha amigos lá! Mas há que se dizer também que, quanto mais os dias passam, mais me lembro do quanto aqui as sensações podem ser bem menos expressas...
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Um comentário:

  1. acredito e acredite(muito) na beleza e magia da sua partilha! é daquele tipo de coisa que entra pra lista de acontecimentos incríveis!

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graças pela partilha!

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