#FUTURÍVEL



foto de daniel tancredi


"subo nesse palco..."


É o que ouço logo que entro no ensaio. Penso bem, e entendo que viver é mesmo assim... acordar, todo dia, é sinônimo de subida. E a vida, afinal, não tem ensaio.

Na sala, é talco pra todo lado... Almas se chacoalham sem parar...
Mas aí vem esse momento em que o som pára.

A vontade é de gritar.

Porém, o que vejo é a galera do som retornar à fala; sem excedentes. Como pode ser? Penso... E, em sequência, paro de pensar. Pode ser. Pode ser que, futurivelmente, seja mesmo assim. E viver seja uma vontade imparável de gritar. Uma demasiadamente imparável vontade que, por conveniência, às vezes pára, apenas pra que, sem deixar de ser, as pessoas tenham meios de poder retornar à fala, sem gritarias.

Vai ver viver é, freneticamente, como nos sugere o som de Macaco Bong, teimar à vida pra que dêmos mais uma...

O tempo todo.

E uma na sequência da outra...

Sou antropófago desde antes de saber o que era ser-me um. Gosto da comilança humana - e redundância seria dizer, também, cultural. E sou tropicalista demais para ser chamado assim. Desando a escrever em primeira pessoa, sem já nem saber mais quem há nesse sou...
Quem há nesse som...

"subo nesse palco..."

Eu não poderia falar de Tropicália. Não posso falar de nada. Eu nem gosto dos nomes. Quero dizer... eu até gosto de como ressoam, às vezes... eu só não soube ainda pra que servem... os nomes. Sou péssimo em datas. Tenho memória esquisita. Não sei diferenciar gótico de barroco. Não sei responder sobre o estilo das minhas canções. Não entendo quando me perguntam o que eu faço. Eu vivo. A música também. E...

Viva a Arte!

Como pode alguém ser só músico? Só poeta? Só fotógrafo, coveiro, maestro, garí?
Todo mundo nasce pra ser artista. Todo mundo nasce pra ser pedreiro.

E eu, assim, nascí pra ser arteiro.

"subo nesse palco..."

Acordar todo dia é sinônimo de subida. Tem Macaco Bong, tem Gilberto Gil, tem DJ Tudo com a banda toda, tem toda a banda de pife, que é Princesa do Agreste, tem a boa e velha guarda, a galera do estúdio, a das fotos, das filmagens, palavras, tem moça do café e da limpeza, tem gringo querendo sambar, tem muita gente, boa demais, e tem Branquinha, cachorra linda, já bem velinha, mas que insiste em estar...

Vai ver é porque viver é a Arte do Encontro e Branquinha, até ela, é arteira e quer encontrar.

Todos ali a ensaio. Mas a vida não tem ensaio. Nem assim.

"subo nesse palco..."

Pessoas cantando o encontro... Pessoas tocando o encontro... Pessoas fotogrando o encontro... Pessoas filmando o encontro... Pessoas escrevendo o encontro... Pessoas dançando o encontro...

Pessoas. Encontro.

Minhas mãos jovens e ainda pouco calejadas encontram as de Gil.
... É aí que entendo, sinestesicamente, que o tempo também passa ali.

Suas mãos se vestem já com a maciez da melhor idade... E me contam, suavemente, toda uma história de palco - e redundância aqui seria falar de vida.
... Ainda temos muito pela frente.

Acordar todo dia é sinônimo de subida. E, as mãos de Gil, são mãos de quem já acordou e subiu um bocado.

"subo nesce palco..."

Todos os sotaques, todos os timbres, todos os naipes, todos os tons, todos os pixels, todos os quadros, todas as caligrafias, todos os passos, todos os compassos, todas as idéias, todos os olhares, todos os sentidos... todos ali.

Aos poucos tudo vai virando a mesma coisa. É pífano com stratocaster, canto da ema com trip hop. É nêgo fotografando com agogô, branco fazendo slap tap na câmera de fotografar, moreno cantando na ponta do lápis...

Quando vejo, tá todo mundo junto. Tudo em Tudo. No palco. E que bom, já que a vida de qualquer pessoa também é pra tocar no rádio.

Some Gil. Some Macaco. Some Princesa. Some Tudo. Somem pra aparecer algo mais...

Tudo vira Arte. Tudo vira Encontro. Tudo vira Vida.

Tudo transmutado em Energia...

Futurível.


É tempo de ocuparmos o palco, muito mais conscientemente. A vida não tem ensaio. Há um chamado. Há outro estágio. Há nova coesão. Há em nós, corações linda, perfeita e humanamente mortais. E, nesse nosso caminho inevitável, sejamos vivos, muito vivos. Em corpos brilhantes. Mentes mais inteligentes. Humanos em superdimensão.

Fique calmo, vamos começar a transmissão.
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3 comentários:

  1. Raafa! Que lindo isso! Parabéns pela forma mágica que compartilha suas experiências e sentimentos com a gente! Agora to seguindo pra não esquecer e vim bisbilhotar sempre! Beijos! =)

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  2. Que demais querido....amigo poeta! q prazer em te conhecer!

    Amo infinitamente!

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graças pela partilha!

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este trabalho de rafa carvalho, foi licenciado com uma licença creative commons - atribuição - não comercial - compartilha igual 3.0 não adaptada.