que maravilha! (sempre a girar...)

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Era nossa primeira vez em Goiânia. Na verdade, era nossa plena primeira vez. Como se a vida, refeita, nos dissesse: reapaixonem-se!

Era também primavera. Dela e, por coincidência, chegávamos perto do fim de outro inverno. Como se a natureza nos quebrasse o gelo, como se germinassem sementes, como se pétalas enfeitassem aqueles passos e fosse tempo de reanimar.

Era ainda lua cheia. Uma brisa leve acarinhava nossa caminhada, como se a noite nos soprasse segredos e sonhos de reencanto.

Passeávamos pela calçada da Goiás como crianças renascidas.

Ainda crianças chegamos até o hotel; hall de entrada, elevador, quarto... E, muito mais crianças ainda, fizemos todo o inverso logo depois.

De volta à Goiás, fizemos a travessia até o canteiro. Havia ali árvores de jenipapo – penso que eram de jenipapo. Ela nunca havia visto morcegos. A árvore que achamos estar caída e que salvaríamos, não era uma muda, mas um galho quebrado. Nunca quis mesmo saber de galhos tortos que nunca se endireitam; mas soube ali um pouco mais sobre "com quantos paus se faz uma magia"... dessas, que entortam a vida todinha.

Demos àquele galho um solo mais gostoso pra se deitar e reintegrar-se à Terra. E a nós, demos a chance de reler o destino.

Metaforicamente estávamos no centro distante. Ironicamente, habitar aquela distância nos trazia um gosto bom de volta pra casa. Podem até dizer que a vida é mesmo metáfora e ironia quase sempre, mas, naquele instante, a vida era apenas nós dois.

Confesso que não pensei nas baladinhas do Elvis que sonhei dançarmos tantas vezes. Pensei naquela primavera e talvez na dança que teríamos dançado, como presente, não fosse a saudável curiosidade de experimentar o tal "arroz com pequi". Mas aí (re)pensei apenas naquele momento e na eternidade que havia ali.

De um abraço vieram os primeiros passos, juntinhos. Sem combinações, sem desajeitos e sem que meu dedão do pé direito, luxado, sofresse qualquer topada, entramos em sintonia e fomos... Pelas notas daquela melodia que só as nossas almas ouviam e que, já havia muito, ouviam.

Naquele momento a brisa era já vento, nuvens brincavam de esconder a lua, sacolas plásticas voavam pelos ares e pessoas passavam por ali, muitas correndo da chuva que vinha iminente.

E eu pensava: "meu Deus, quem nos dera chovesse!".

Conversávamos, ríamos, silenciávamos, ríamos. Dançávamos. Essa é a valsa de nosso novo tempo eu lhe disse. Perguntou-me se o que dançávamos era mesmo valsa e não, não era. Mas lhe disse que seria a nossa valsa, se assim quiséssemos... e quisemos... ... ...

...

Já se ia uma eternidade inteira e sequer lembrávamos de qualquer outra coisa pr'além daqueles passos. E estávamos assim, até que escutou-se... longe:

"Valsa vai dar casamento, hem!"

Primeiro, abriram-se ainda mais os sorrisos. Depois, os olhos. Daí, o longe fez-se perto e o que pareceu anunciação divina, benção de Santo Antônio casamenteiro, era já brincadeira daquele cara na calçada de lá.

Fecharam-se os olhos de novo. E o meu sorriso foi-se, de pouco em pouco, refazendo-se em som...

Segredava-lhe meu melhor Jorge Ben.

Diverti-me em reparar que ela era sempre descabelada.

Adverti-me de que essa era mesmo uma das coisas que eu mais gostava nela... E de que ela era sempre linda , assim...

Naquele momento, a chuva era já também eminente. E aí...

"Que maravilha!"

Choveu... ... ...


Como se o toque dos sorrisos fosse mesmo inédito, vivemos aquele outro primeiro beijo. Pedi-a em casamento. Ela disse sim. A chuva chovia mansa. E permanecemos ali... A girar.
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