Bar Italiano



Quarta-feira, 20 horas, 20 minutos. Saí de casa para abastecer, dar uma volta pela cidade recém anoitecida, ver suas luzes, recentemente acesas...

Queria também comprar um par de ingressos para um espetáculo de Flamenco, cara da Espanha e tal, no sábado. Mas encontrei a bilheteria do teatro fechada. Saco!

Parei em um ‘Bar Italiano’. Pedi um chope belga, pilsen. A música é americana e, ao fundo do balcão, uma tv de plasma transmite um jogo de futebol; campeonato inglês.

Tiro da bolsa meu livro sobre Gustav Klimt, o magnífico pintor austríaco; certamente entre os meus favoritos.

No balcão, um velho bem arrumado toma cerveja irlandesa e tenta de todas as maneiras envolver a jovem que calça um par de all star vermelho; mesma cor do suco que bebe. Um grupo de colegas de trabalho se senta bem atrás de mim. Pedem cerveja, para relaxar, e começam suas conversas empolgantes; todas sobre o trabalho. À minha frente, um casal se beija. Em uma outra mesa, na área de fumantes, uma mulher com traços orientais se levanta para ir ao banheiro. Seu acompanhante, na mesa, faz uma cara de que as coisas não vão tão bem, mas permanece; quase indiferente àquilo tudo.

Será que ela aceitará ir ao show no sábado? Onde estará nesse mesmo momento? Estaria bem ou rendida àquele velho ânimo parasita que lhe rouba quase todo o encanto, quase sempre?

Peço petiscos italianos, por um pouco de coerência; alguns queijos. E outro chope belga; dessa vez, weiss.

“Não existe cerveja forte. Existem pessoas fracas” é o que diz a propaganda na minha mesa. A frase me faz todo o sentido.

Embaixo do meu novo copo, diferente do anterior, de formas bem mais provocantes em linhas extremamente femininas e sensuais, uma outra propaganda “Devassa: um tesão de cerveja”.

Por que ela não se deixava ser assim? Por que retinha em si toda aquela energia flamenca de vidas passadas? A latinidade a romper-lhe as veias; a pele fervente, o toque gélido; os olhos de fogo, o foco apático... Por quê?

Entre quarta e sábado, alguns dias e muitas eternidades. Viveria ela alguma?

Eu a queria pra mim. Prà vida toda, mas não podia. Eu era louco, como Klimt, e, como ele, pintava uma mulher apenas se ela me fosse fatal.

Eu lhe daria as paisagens mais lindas, as molduras mais loucas, os temas mais interessantes. Recriaria toda a arte daquele encontro, diariamente...

Mas precisava dela. Precisava de seu nu artístico. Precisava de seu nu arteiro.

Matei aquele chope como a mataria se ela me provocasse tanto quanto aquele copo à minha frente. Matei-o como me deixaria matar por ela, se ela me viesse assim, cheia de sede...

21 horas. 21 minutos. Pedi a conta.
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2 comentários:

  1. gostoso ler uma história que já tinha contado...saborear duas vezes...uma delícia, as duas, fruta-cor, e todo resto.
    todo.

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  2. Rafa, caralho meu!
    Marcinha =)
    20.08...

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graças pela partilha!

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