Clown’strofobia

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foto de cá milani


Homens, mulheres e Deus. Homens e mulheres. Crianças e adultos. Ricos e pobres. Patrões e funcionários. Desenvolvidos e subdesenvolvidos. Bons e maus. Bens e males. Certos e errados. O branco e os não-brancos. Os brancos e os augustos...

No céu da Capela Sistina, ‘A Criação de Adão’, de Michelangelo, é também a criação de Deus. A criação da separação. A separação da criação.

No chão da Terra, Lao Tsé dá a dica, do lado de lá: “Quando produzas um pensamento, te ri dele”. Do lado de cá, Descartes descarta a idéia e diagrama seu paradigma cartesiano. O mundo acorda ambíguo, dúbio e dicotômico.

É isso ou aquilo. E o humano quer ser Deus. A essa altura ainda não O é, mas já não é também humano. Abandona sua imagem e semelhança e se embranquece. Brancos. Somos todos brancos, vivendo de aparências. Fingindo ser o que não somos. Fingindo ser. Fingindo viver.

A Pós-Modernindade vem, repleta de espelhos o nosso redor, e faz-nos rir de nós mesmos com desdém, bem quando pretendemos rir dos demais. Trancamos boa parte de nós mesmos em um quarto escuro e sobrevivemos com a mentira que nos sobra.

Boicotamos a humanidade. Debochamos da criação. Desdenhamos a magia do toque final da obra de Deus: a liberdade. O direito às dores e às delícias da vida. O direito ao amor, à vadiagem, à bebedeira, ao cio, ao ócio, à trapalhada, ao engano, ao erro, à brincadeira, à piada, ao atraso, ao improviso, à criatividade. Às risadas fora de hora, às noites em claro, aos dias na cama, aos assaltos à geladeira, aos passeios repentinos, às idas de pijama à padaria, aos beijos roubados, aos banhos de chuva, às danças na calçada, aos piqueniques nos bosques com xadrezes toalhas, às viagens prà Lua...

Apagamos a beleza mais que poética do humano, com máscaras brancas apáticas, pálidas e evasivas. Escambamos a estética incalculável do indizível por um blá-blá-blá qualquer sem ética nenhuma. Perdemos a chance de passear, dançar e flutuar pela vida, de vivermo-la livres e intensamente, a troco de meras e falsas ilusões.

E os que sonham – mesmo de dia –, os que crêem que voar é do homem – e da mulher –, os que cantam no banho e os que passeiam felizes em cuecas – e em calcinhas e sutiãs –, pela casa, somos loucos. Os malucos que têm esperança, os românticos pirados, os lelés que amam sem medo de outra desilusão. Amam a família, os amigos, a vida, a moça bonita de saia laranja e fita no cabelo, o rapaz malabarista que tem cabelo esquisito, a caixa do supermercado, a árvore que dá lindas flores rosas uma vez por ano, o pardal que de vez em quando aparece na janela, a chuva que de quando em vez pega a gente de surpresa, o velhinho que está sempre na praça... E que se amam também.

Sortudos que um dia encontram, no arbusto dum bosque, no fundo de um rio, no mel de uma boca, no baú velho do quarto do avô, embaixo do travesseiro, numa constelação do céu ou em qualquer outro lugar: um nariz vermelho...


Senhoras e senhores; crianças e adultos; patrões e funcionários; brancos e não-brancos; deuses e animais; é com grande prazer e enorme satisfação que gostaríamos de apresentar: ele, o clown.


O clown é o ser trancado no quarto escuro. A humanidade se choca se vê que, na Áustria ou em qualquer país desses, um homem tranca a filha por anos no porão de sua casa, o que é, de fato, um absurdo. Mas falta a sensibilidade para enxergar o porão que há em cada um de nós, onde são trancadas tantas e tantas coisas, e por muito tempo. Crianças, bailarinos, jogadoras de futebol, pintores, musicistas, patinadores, comediantes, chefes de cozinha. Tantos artistas. Tantos arteiros. Tanta arte...

É lá que fica cativa a criança, quando a sociedade exige que sejamos adultos, mesmo quando temos apenas cinco anos de idade, ou até menos. É lá que fica o miserável, quando se pretende aparentar afortunado. É lá que se ajeita o desajeitado, quando a idéia é esbanjar pompa e fineza. É pra lá que são mandados os românticos, os poetas, os que adoram brincar na lama, os que contam estrelas e os que gostam até de comédias românticas hollywoodianas dubladas com intervalos comerciais, de vez em quando.

O porão, senhoras e senhores, o quarto escuro... É o lar doce lar do nosso clown. É onde mora a angústia de augustos e augustas. A morada escura, sombria e tenebrosa de nossa torpeza.

O clown – não que ele queira, nem que ele saiba – é o guardião da beleza humana. O clown pode ser o que quiser. Qualquer coisa. Poeta, literato, simpatizante do existencialismo, líder espiritual, miss universo e até marxista. Pode falar esperanto, ser faixa preta em Karate, ter miopia, medo de altura ou reprovado a sétima série. O clown é o ‘vazio’ que há entre o dedo de Deus e o de Adão. É a ponte que não serve para ir, nem para voltar... A ponte que serve somente para atravessar.

Somos brancos, mas somos também augustos. Somos humanos e Deus. E bichos. Iguais e diferentes. Somos yin e yang. Trevas e luz. Alegres e tristes. Somos feijão e arroz. Queijo e goiabada. Escargot a Bourguignonne e caldo de mocotó. Somos crianças, desajeitadas e bagunceiras; contraditórios e vagabundos.

Ser clown é descartar Descartes. É não descartar o pensamento, mas também não deixar de rir dele. É deixar que nosso branco e nosso augusto durmam abraçadinhos um com o outro – e que se esbofeteiem às vezes, também. É achar graça da vida – e até das suas desgraças. É chorar se der vontade. É falar palavrão, matar aula e mudar o caminho para chegar nos mesmos lugares. É esquecer o que se tinha que comprar quando se chega na vendinha da esquina. É ficar bravo, de repente. É ver o mundo todo se acabar. É um drama mexicano. É ver o mundo todo renascer mais lindo depois. É cantar, beijar o português da banquinha de jornal e soltar pipa. É ser curioso. Colecionar detalhes, arco-íres e eternidades. É se apaixonar todo dia, enlouquecer todo dia, sair correndo pelado por aí às vezes e dormir como um anjinho.

É tirar nossos seres sombrios do porão escuro e dá-los um banho de luz. É desnudar-se para viver uma verdade, qualquer que seja. É viver bem a vida boa, seja ela como for. É ter fé em Deus, pé na tábua e a alma nua... É desconhecer a Capela Sistina e pensar que Michelangelo seja apenas uma tartaruga ninja. E ainda assim, ser feliz.
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