Ensaio Prático, Escolástico e Abacático sobre a Maldição Psico-Pedagógica dos Nomes Bíblicos



No princípio era o abacate

As crianças subiram para a aula. Uma trazia nos braços seus três abacates, todos verdes, naturalmente, mas cheios de maturidade em si... desses que, já meio moles, se jogam dos pés.

Eram abacates que abdicavam de seus postos em lugares altos para descerem à terra. Gesto quase evangélico, eu sei... E sei também que ‘3’ é um número todo recorrente na vertente cristã das coisas... Mas, para mim, até ali era tudo coincidência.

Até que, no meio da aula, aquele novo aluno, de quem nem me disseram o nome, mas que me garantiram ser hiperativo, revoltando-se contra o fato de um ter três abacates e ele, nenhum, começou o movimento...

Certamente, aposto, seu nome era desses, bíblicos. Mais ainda: aposto que era nome de novo testamento. Apostólico. E não um apostólico simples, mas sim, um duplo, composto. Desses, tipo João Paulo, Marcos Tomé... Esses.

Foi quando Lucas correu até os abacates, se apossou de um deles e, com um movimento de corpo inteiro, que ia da planta dos pés, bem firmados no chão, até a ponta dos dedos das mãos em seus braços completamente estendidos acima da cabeça, lançou-o com uma força fantástica para o alto, meio que nem Davi para acertar Golias.

“Lucaaaaaaaaaaaaaaaas!”... ouvia-se a professora naquele momento meio que em câmera-lenta, enquanto o abacate parecia retornar sublimemente aos seus lugares altos de origem... mas apenas até começar a descer a uma velocidade violenta e se arrebentar todo naquele chão, espalhando o verde-meleca por todos os cantos.

Possessa, a professora corria na direção do coitado, com o sermão já todo pronto, quando a imagem de um segundo abacate precisamente colocado no centro daquele salão, me chamou à atenção.

A dez metros dali, Pedro, que passara despercebido até então, preparava-se discretamente para o lance mais importante da sua vida. Focou o fruto sereno, todo cheio de concentração... e correu... Correu muito... Correu mais... E ‘bem’

A professora exortava Lucas bem perto dali, com as outras crianças todas também por lá, preenchendo o entorno do lugar... Tudo virou guaca-mole...

Desde então, abacate tornou-se fruto proibido naquela escola.
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