Discagem Ditera Interplanetária

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Alô! Sim, ouço... alto e claro. Alta – talvez nem tanto – e morena, como apenas sua pele pode ser. Falo de Saturno, sim. Daqui da janela vejo sete luas. Dafne, Pandora, Calipso e outras quatro. E ali, bem ali, aquela relva púrpura em que nos amamos pela primeira e por todas as vezes. Quantas encarnações até a gente aguentar conter os desejos à cama branca? É... o que sei é que... até lá, ela – a cama, tal qual sua gêmea terráquea –, segue donzela aqui; a porta segue inadentrada também; e, perto dela, a chancela de nossos corpos naquele tapete tinto a céu aberto, onde, em todas as chances, recaímos...

Voltei pr’aqui em suas asas lunares, nas trilhas do braile que lí no urucum das suas costas. Lembro do toque leve dos meus dedos, na sombra da madrugada lilás que se acortinava entre brisas alí – simplesmente alí – e depois da força com que agarrava as suas escápulas quando já a decorava mapa, mas ainda a queria costas, apenas costas. Confundí seu mapa com unhas e dentes, eu sei. Sangue na açafroa. O meu no seu... Baixo ventre, meu veneno-néctar escorpiano; pescoço, meus beijos em roxo quase azul; testa, meu tilak índigo mais pessoal. Ainda assim, salpiquei as estrelas de amora, pra que marcassem minha jornada de joão sem maria, como lembranças dos caminhos mais divertidos até aqui.

E desde que cheguei, deitei-me alí. A porta segue inaberta e, como sempre, destrancada, a esperar por quatro mãos amantes, esbaforidas; um cotovelo desajeitado de quem tem pressa e o amor nos braços; um par de ombradas de dois que mal tomem conhecimento de si, como porta; ou mesmo uma voadora marcial, se a estrela que brilhar no céu de nossos pés, for ela, Dalva, soberana e bêbada de paixões enlouquecidas.

Sim, trouxe Vênus comigo. Aqui é bem grande, sabe?... Dexei-a bem por perto e todas as noites de sexta fazemos luais e serenetas, regados a vinhos de uvas especialíssimas de Titã. Acompanham-nos muitas vezes anjos boêmios, em anos sabáticos, de passagem, que resolvem ficar para algumas taças e canções. E histórias, naturalmente... Semana passada um deles, depois de um dueto de rabeca e acordeom, reparou-me a marca na pele e disse – reconhecí aquele sotaque: “É dela, num é?”. Sorrí...

É, nêga, lhe tenho saudades. Nêga... ... ... Aquela flechada ainda me escorre prazeres ardentes no peito.

Meu planeta-regente mobiliei com um sofá: roxo. Para que surfe, sempre que marear pra cá. Botei lá, também, paredes, chãos e lençóis virgens, da cor dos seus olhos virados. Seja sempre bem-vinda.

Nossas filhas ainda vibram por aí. Nossa cria de palavras e sonhos...
Aborte todos que quiser... sei ser incapaz. Quem a si sequer envelhece, jamais morrerá.

E não se sinta tentada a me explicar o que for, mesmo que impotente. Mas não hesite em me beijar, se puder.

Voe toda sua liberdade, leve, linda, morena, e não me diga adeus. E se quiser que esse julho acabe realmente, apenas pare de se deitar, nua, na cama branca; e se descubra daquela colcha de retalhos também. Ou apenas me diga... que eu rompo com o acaso e, o que ele fizer dalí pra frente, é coisa dele com Deus.

Lavo nossas escadarias de travesseiro com alvejante e reofereço-lhe a todos os santos. Mas, meu corpo, ainda lavo com sua água de chêro, nêga.

E a água da minha boca ainda é sua.

Ah, faltou dizer: liguei porque vi sua mensagem na secretária digital, e...

Eu também lhe quero, corpo e tudo, visse?

Será sempre sonho da minha cauda e gosto do meu agosto.

Ouve? Ouço aqui um som alto, mágico e sensual, como de metais.

...

Era o anjo da rabeca, dessa vez em bando – banda, talvez – em melodias que lembravam cartões postais da Itália, dizendo a mim: “Diga a ela que tenha sempre, de qualquer maneira, pelo menos uma do Beirut por perto”...
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