Moskada a La Rafa

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Saudações!


Parto pr'a estrada... Partida... Partido... Em busca de fragmentos meus... De mim mesmo... A me caçar, longe do meu lugar... A achar mais da mesma busca... Brasil e alma adentro... ... ...

Há quem desacredite em Amor. Se tem certeza de ser amada, pára de "amar" imediatamente.
Há quem queira o impalpável. E largue qualquer coisa que apalpa.

Há quem sonhe o impossível, mas diga que o impossível é questão de tempo. Palavras bem arranjadas, frase bonita...

Mas, eu mesmo desacredito em impossível. Creio demais no hoje. E sempre mais n'O Amor.

Eu, que já falei demais... Empresto dizeres, em mixagem, de um parceiro de cachos e gêmeo da mesma desova, na seqüência...

Mas nada dessa coisa toda é pra entender. A vida, ela mesma, é mais pra sentir e pra fazer acontecer. Amar é deixar-se ser e... Enfim...

Há, também, quem coma mosca... E a esses e essas: o que chamarei de "Moskada a la Rafa".

Antes, porém... Dentre tantas moscas comidas... Por tantas bocas abertas e suas línguas... Há uma língua... Uma... Que me deixa a boca - minha mesma - aberta... A língua que sonho sempre tocar a minha língua... Na singular língua, única, que falo e escuto: O Amor...

Se for pra ser... Se for que seja... Que seja esse Amor, Amor pra se chamar 'primeiro beijo', por fazer esquecer todo o passado... Que seja Amor pra se chamar também 'último adeus', por fazer abandonar o antigo futuro... Amor pra amar e chamar de 'aurora', 'abismo', 'universo'... Pra chamar 'silêncio', pela dor calada e o pelo desejo mudo... Amor pra amar demaneira insana e chamar de 'palavra louca'... E , talvez, simplesmente, Amor pra não se chamar... Pra não significar nada e dar sentido a tudo... ... ...


La Moskada:


Acabo de pousar na sua janela e mesmo sem você notar estou aqui, porque não consegui me distrair por aí. Pela cidade o que mais se diz é que minha tristeza te deixa feliz. Mas tudo que você deseja eu já fui e agora sua alma sozinha possui um ontem que não existe mais. Como ajudar alguém que não pede socorro?... Alguém que não consegue chorar? Continuar, se já chegamos no alto do morro e não encontramos vales nem rios para atravessar? Quem sabe um dia eu possa chegar novamente no porto onde você está à espera do velho navio, que não percebeu que acabou de afundar?... Num ontem que não existe mais... Eu já lhe pedi desculpas por aquilo que eu nem te fiz. Eu já lhe salvei a vida, quando a minha tava por um triz. Eu já lhe ensinei os truques que eu nunca aprendi e já lhe contei estórias de livros que eu nunca li. Vou abandonar o que já sei e acreditar no incrível, pois foi por água abaixo aquele nosso plano infalível. E para suportar a dor de perceber o seu desprezo ao me perder sei que preciso reinventar o amor e colocá-lo novamente dentro de você. Quando eu modificar a imagem que aprisiona o seu pensamento, você vai vencer o medo de viver e seus desdobramentos e vai encontrar o caminho da beleza, labirinto dado como perdido, e vai subir no alto de uma torre na alma do nosso castelo demolido. Eu sei que o Tempo é uma grande árvore de galhos infinitos e que o presente é o momento em que ela dá seu fruto mais bonito. E que amanhã tudo talvez nos apareça claro como foi no início. E a mesma ilusão de amor nos faça saltar felizes de um novo precipício. E então vamos sentir de novo o gosto da eternidade e confundir instantes de alegria com a real felicidade. Ou, sem percebermos, os dias irão passando como um trem sem estação e lá estaremos nós com os pés no chão, mas encostando o céu com a palma das mãos. Tudo é possível, não há nada que se possa deter. O que era impossível acaba de acontecer? Você não sofre porque não sente o que eu sinto. Há um iceberg em você que eu tenho que derreter. Que tipo de piscina terá embaixo desse trampolim? Que pulo que eu vou ter que dar pra não me ferir? Porque acordar sem você é ficar cego no amanhecer. É assistir o fim do mundo, depois escurecer. E eu, no meio disso tudo, sem saber que já estamos no início do que vamos ser. Hoje eu não acordei. Hoje eu não vou dormir. Hoje eu nunca lhe dei. Hoje eu quero partir. E hoje quando amanhece sol, abro a janela para a chuva. Que coincidência: sua mão não cabe mais na minha luva. O que aconteceu com o futuro que morreu?...Ou nunca existiu? Você nem olhou pras coisas que admiro e nem me ouviu. Mas era eu quem lhe chamava com meu último suspiro... Que aconteceu com o futuro que se perdeu? Nunca foi cedo, nem tarde. Já nem sei se me jogo. Já cansei de cair desse topo. Alguém triturou meu coração, dizendo que ‘tava com medo’, mas o medo devora e mata com sua cara de "não-me-maltrata" e "não-faz-mal, não". Ela disparou sem ninguém ver, ferindo quem a desejava. Se jogo minhas ondas de mar no incêndio da sua floresta é para poder entrar, quando a porta não estiver aberta. A corda bamba estourou. E se me afogo na dor é para cicatrizar nosso corte. Você poderia até tentar dizer as frases que eu já sei de cor. Mas meus olhos de nuvens pesadas, surdos de tanto silêncio, estão comendo pedra, chorando pó, bebendo vento e andando só. Palavras têm gosto de nada. Mas se você nem quer saber o que eu penso, quem vai poder entender meu mundo de duplo sentido? Lhe dei saliva pra matar a sede e suor pra lavar o amor. Lhe dei o sangue que corre nas minhas veias e lágrimas frias no calor. Lhe dei a flecha pra atirar em mim e um livro pra rasgar as folhas. Lhe dei o zíper de fechar e abrir. E a possibilidade de escolha. Lhe dei uma moeda de pedra. Lhe dei um nome e os nomes estão perdidos. Lhe dei a pena da asa de um anjo e os meus sonhos preferidos. Você se mostra rasa, quando já tocou lá no fundo. E agora, a cada segundo que passa, minha cabeça gira mais que o mundo. Você sonha e se sente perdida. O tempo voa e eu te quero pro resto da vida. Me perdoe a impaciência pr'eu lhe perdoar também. Já estou muito atrasado pro foguete que não vem. Mas mesmo assim eu sigo meu caminho pela trilha secreta. E, se o chão é de espinho, o céu ainda me afeta. Ao lado da parede tem uma porta aberta e embaixo do tapete o meu bilhete... Mas chegou a hora de acertar as contas, com a sua própria vida: se olhar no espelho e encarar seu medo: beco sem saída. É... Eu sempre escrevi e vivi desse jeito. Se você não suporta mais tanta realidade, se tudo tanto faz, nada tem finalidade, então pra quê viver comigo? Eu não vou ficar pra ver nossa ponte incendiada, nossa igreja destruída, nossa estrada rachada pela grande explosão que pode acontecer no nosso abrigo. Olhei pro amanhã e não gostei do que vi. Sonhos são como deuses. Quando não se acredita neles, deixam de existir... Lutei por sua alma, mas admito que perdi. E agora vou me perder nesse planeta conhecido, intuir novos mistérios que ficaram escondidos. Meu corpo vai sobreviver mesmo estando ferido, e até na hora de morrer eu não vou me dar por vencido. Porque sei que meus perdões vão estar bem ao lado dos seus. Quando a montanha é alta e a trilha é cheia de mistérios, é preciso uma força abstrata para soltar o nó da gravata de uma ilusão. Cê certamente saberá, um dia, que o melhor momento da vida é quando a dúvida lhe arrebata e lhe pede pra ser a acrobata da decisão. Seu vidro embaçado, não me deixa entrar no quarto. Mas o silêncio grita que você não está, porque não conseguiu ficar sozinha aqui. Afinal, o que você pode fazer se não se lembra mais o que era antes de me conhecer?


Tão distantes, enfim... Sem querer estar assim.


Essa é a última solidão da sua vida. Aproveite e cure a última ferida.
Nunca mais solidão.




Té de repente...
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Um comentário:

  1. Caramba... tenho que ler devagar... essa música, Ainda há ai fragmentos de músicas que me fazem chorar. Lindo isso!

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graças pela partilha!

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