Fogo a Lenha

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Minas me remete a Fogão a Lenha...

E que delícia de remetência!

Se tenho fome, vejo coisas... Alucinações... E, nessa viagem, tenho sempre fome. Fome de paz, de vida, de Amor e de arte... E essa fome queima louca e lenta feita brasa, e sempre se refaz...



Uma eterna Rafagia...



Nas alucinações, vejo Deus em tudo... Mas o Deus que dança... A dançar e dar as caras em todas as partes de todas as coisas... Nos montes que sê vê da estrada, nas aves do céu, na boléia do caminhão, na praça da cidade pequena, na água, no vinho, no café, na cerveja, no pão de cada dia... No Fogão a Lenha...

Todas as coisas se fazem parábolas e metáforas... O mundo se refaz em ensinamentos, lições e experiências...

O alimento feito no Fogão a Lenha é muito mais suculento (adoro o termo)...

É fascinante toda a vã filosofia que faísca ali, assim como toda a essência parabolicamente metafórica que vice-versamente compõe o Fogão a Lenha. E como é gostoso o gesto de religamento, se feito no calor desse fogo 'às antigas'... Odeio eles, os rótulos. Não sou conservador e gosto de muitas coisas dessas...: pós-modernas. Confesso que já usei muitas micro-ondas... Mas quem vai negar que as ondas macro passionais de hoje prezam por outras combustões, bem mais imediatistas? As chamas contemporâneas se alimentam mesmo dessas inflamações, causadas na gente toda. Eu mesmo me alimento de paixões. As tenho como apaixonantes a mim, infinitivamente. E... Um dia sem paixões - nos feitos, nos gestos, nas crenças e nas ações - me é sonso como o alimento que dizem ser "pra doente". As paixões colorem. Exclamam! Temperam a vida cotidiana. Queimam. Explodem. Ardem.

Sem elas a vida sobrevive... Se tiver sorte e um destino piedoso... Mas, quase sempre, ela morre mesmo. Sem elas, as paixões, inexiste a poesia.


Sem paixões, inexiste o Amor.


Mas diz-se d'Ele, o Amor, que o mesmo É... E Ser (assim com 's' imponente) é existir além e aquém de qualquer coisa... Livre existência... Soberania... Independência... Simplesmente, Ser...

Mas, Ser é, em si, uma existência carregada de paixões. O Amor é o uno poeta... A pena-mestra dessa epopéia humana... O Amor, ele mesmo, se alimenta de paixões... ... ... 



Esse texto ficou inacabado assim, no meio da viagem, quando ainda me deslumbrava vagante pelas Minas Gerais... Nessa 'antropofagia nossa de cada dia', a viagem tornou-se tão fagocitante, que me levou pra dentro do âmbito das vivências numa intensidade tal, que a escrita a cerca das coisas vividas, ficou quase comprometida. A escrita quase, a atualidade do blog, contudo, ficou fatidicamente, comprometida! Seja como seja, as coisas todas vividas foram inscritas no cara que hoje eu sou... E gotejam na tinta da minha caneta - mesmo ao digitar - às palavras que acontecem, quase naturalmente, nessa minha travessia do reino do silêncio em seus ilimites, para as terras da expressão, tão humamente lindas e desafiadoras, imperfeitamente perfeitas e ilimitantemente limitadas, de onde se faz coisas como essas postagens.
A viagem, no seu sentido quase impensado, razo e aparente, terminou. Mas é bem capaz que eu volte, aos poucos e vez em quando, para falar de coisas de lá. Já também, posso falar das coisas de já... De depois da viagem, de outros tempos, outros momentos, anteriores, futuros, concorrentes, inexistentes...
E esse texto fica assim, inacabado... Mas exposto. Ainda que sem final, ele tem um fim. E eu gosto mesmo da arte inacabada, em especial - pelo menos nesse momento - das artes que perpassam, de alguma maneira, a escrita. Eu que também gosto de pontos finais, penso que eles sejam enganadamente postos tantas vezes, em tantos lugares. Gosto também das coisas sem finalidade. Amo as reticências. E me pergunto sempre a cerca das coisas realmente acabadas dessa vida...
Seja como seja, esse texto fica assim, inacabado... Pelo menos por enquanto. Mas segue vivo, na sua brasa calma, mas longa, como Fogão a Lenha...
Que venham as paixões diárias! E viva o Amor que É! E pode ser que, de calor em calor, a seu tempo, esse texto se forge inteiro, enfim, e assuma suas conclusões, talvez até arrisque um ponto final, vai saber...
Até lá, ele segue assim, inacabado...
E inacabado assim, ele inspira o ar da sua existência nas arestas entre a incerteza e o possível... E que lugarzinho mais bem ajeitado esse, para o Amor e suas paixões, afinal!


E de mais a mais, nesses dias em que já quase não há mais Fogões a Lenha, qualquer meia palavra que se esforce para falar de Amor já é uma centelha de esperança lenta, porém real,  a mais pr'a alma desse planeta... E algumas ilusões congeladas de preparo rápido a menos, nas prateleiras dos mercados.


E, ah! Lembrei-me de uma das idéias desse texto assim, inacabado:

Sem paixões, inexiste o Amor. Mas, sem Amor, podem existir elas, as paixões.

A idéia é:


Apaixonemo-nos!


E a vida terá lá os seus encantamentos, suas explosões, calores, cores, seus fogos de artifício, seus suores, derretimentos, calefações... Mas terá também os seus avessos, o frio, os congelamentos, as rachaduras, os tremores... Enfim...:


Apaixonemo-nos!


E se houver esse Amor 'Lenha no Fogão', pr'o alimento de sempre, pr'o sustento do dia-a-dia, pr'o aconchego da lareira, pra servir-nos de manta, poncho e maçarico pr'as precisões de cada instante... Demais!

Mas ninguém se atreverá a dizer que, na presença plena desse Amor-Lenha, em brasa e fogueira, os avessos deixarão de existir. Não! Eles hão de existir! Se não para sempre, por um tempo suficiente para quase dizermos que sim.

E aí então, o que muda?

Eis o tal mistério do Amor, que nunca foi segredo pra ninguém... Mas que mesmo assim, foi descoberto apenas por alguns poetas poucos - que escreviam ou não -, que convencionamos socialmente chamarmos de loucos... Poetas, que até tentaram - muitos deles - partilhar de seus vislumbres todos - e essa partilha toda perambula por aí, nos livros, museus, árvores fruteiras, feiras, asilos, templos, cabarés, universidades, botecos, guetos, prédios altos e favelas... pelo imaginário, pelo concreto, pelos ares -... Mas, no fundo, eles, os poetas, sabiam que cada um de nós faria as suas descobertas, cada qual a seu tempo, e que esses tempos seriam mesmo lentos.


Como o alimento feito no Fogão a Lenha... Muito mais suculento...
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